Gundam AGE: uma história de ódio

Gundam AGE foi uma aposta ambiciosa. A fanbase da franquia, originada no final da década de 70, não consegue sair do Universal Century, e se contenta mais com qualquer coisa que o estúdio Sunrise coloca entre uma entrada e outra no UC do que qualquer tentativa de se criar uma estória inédita. AGE seria uma tentativa de renovação. Exibido aos domingos de manhã, e com um character design mais “infantil”, os produtores miraram no público infantil como uma tentativa de atrair fãs mais novos para a franquia, para desespero dos mais velhos, que viram isso como heresia.

Polêmica com os fãs de lado, AGE se mostrou incompetente tanto como anime em si quanto como uma série Gundam, e a causa tem nome e sobrenome: Flit Asuno.

O que diferencia Gundam de outras franquias mecha não é só um robozão azul. Toda entrada na franquia tem, no mínimo, três características que a tornam um Gundam “sangue puro”: primeiro, é uma guerra entre humanos; segundo, a temática de que “guerra é o inferno”; e o terceiro é o sofrimento e angústia adolescente, uma consequência direta do segundo elemento. Podem parecer fatores comuns hoje em dia, mas quando o Gundam original foi exibido em 1979, eram elementos inéditos e até então inexplorados, já que os animes mecha eram sempre do gênero super robot, onde um robô gigante e praticamente todo-poderoso defendia a humanidade contra uma ameaça externa. Ao dar mais destaque ao elemento humano, Gundam inaugurou o gênero real robot.

O fator um(humanos contra humanos) já anulava os antagonistas Vagans como extraterrestres; o fator dois só foi ser bem explorado na segunda geração, e o fator três foi bem apresentado, mas ainda assim, forçado, principalmente com Yurin. Até aquele momento, Flit, o protagonista da primeira geração, não apresentava motivos fortes o bastante para acompanhar Grodek na “expedição de extermínio” aos Vagans, fora o antigo “vingança pelos meus pais”. A morte de Yurin foi o que o motivou a dedicar a vida a aniquilar os inimigos. E é aí que está a falha geral da série.

O narrador, na prévia de cada episódio, lembra que “três destinos farão história”. Isso é mentira. Flit não é só o protagonista da primeira geração, mas da série em geral. Ele deveria ter sido o destaque principal da primeira parte, e na transição para a segunda geração, ser apenas um coadjuvante, alguém que iria “passar o bastão” para o sucessor levar adiante com o dever de proteger a Terra. Mas não foi isso que aconteceu. O que se viu foi um garoto vítima da guerra que desenvolveu um ódio tamanho pelos Vagans que dedicou a vida para exterminá-los, arrastou a família inteira para dentro do confronto, e até hoje abusa do poder que um dia ele teve contanto que ele continue matando mais um marciano maldito. Ele está sempre presente, sempre infuenciando na direção que a série irá tomar, onde devemos ir, como devemos lutar. Três destinos poderão formar a história, mas só um deles é o real controlador de tudo, os outros meramente sofrem as consequências de tais ações.

Em que Flit é diferente dos Vagans? Nada. Os antagonistas não apresentam nenhuma estratégia clara. Eles simplismente se preocupam em atacar aquela cidade terráquea, matar um monte de gente, não deu certo, vamos tentar tomar aquela instalação, não deu, vamos destruir aquela base, não deu, que tal mais uma invasão à Terra? Não há um plano maior, até agora o máximo que eles fizeram foi justificar o rótulo de “demônios do espaço” que Flit e a série tanto empenho tiveram em lhe dar. Um mundo em preto e branco, uma dicotomia, a velha história de bem perfeito versus mal definitivo.

AGE também falha em se mostrar como um drama de guerra. Flit faz tudo possível para seguir matando Vagans, sempre. Não existe a apresentação de que a guerra é uma coisa ruim, o fator realístico que tornou Gundam famoso. E quando tal fator é apresentado, é numa forma clichê, como na terceira geração. Exatamente o quê os produtores querem mostrar às crianças? Flit abusa do poder militar dele, ele não se importou em levar nem o filho nem o neto para o meio da guerra para “completar sua missão”. No geral, não houve nenhum indício de tentar mostrar guerra como um inferno. E quando houve, foi de maneira fraca e superficial, como o drama do soldado e da mecânica.

De acordo com uma notícia recente, Gundam Unicorn, o OVA em andamento de Gundam, situado no UC, anulou o fracasso financeiro que é Gundam AGE. Gundam AGE tem suas falhas, mas o fato de ter sido apredrejado desde o começo pela fanbase mostra que eles(os fãs) ainda não estão prontos para sair do Universal Century. O que significa a mesma guerra de novo e de novo, o que mata qualquer espectativa de trazer novos ares à franquia que há muito tempo já mostra sinais de esgotamento. O anúncio do remake do Gundam original só confirma isso.

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