Sakamichi no Apollon não soube utilizar sua ambientação

Sakamichi no Apollon atraiu muita gente pela ineditez de sua ambientação. Era mais um anime centrado em estudantes do ensino médio, mas ambientado na ilha de Kyushu(mais precisamente na cidade de Sasebo) nos anos 60, fugindo do lugar comum da Tóquio dos tempos modernos. Kyushu é como uma cidade grande do interior, tem sua importância regional mas ainda assim é distante das grandes metrópoles, e os anos 60 por si só foram um período de muita agitação política no Japão e também no mundo inteiro(quem não se lembra dos protestos de 68 na França?). Uma ambientação incrivelmente promissora, e por isso mesmo a falta de atenção dada a ela é uma falha maior do que se imagina.

Um anime não é realmente obrigado a explorar todo o mundo no qual é ambientado. Mas pode ser um grande complemento. Ghost in the Shell é o melhor exemplo. O filme de 1995 lida mais com o enredo do que propriamente mostrar o mundo completo da ambientação. As séries de TV compensam com sobras: os episódios stand-alone, sem ligação com a estória principal, são mais interessantes dos que os que fazem o enredo andar, justamente porque mostra ao espectador toda a capacidade que a ambientação pode proporcionar. Dilemas religiosos e humanos, o alcance da tecnologia, quebra de tabus, tudo foi pensado, levado em consideração, em uma ambientação já repetida várias vezes(um futuro onde andróides são comuns e a tecnologia atingiu patamares inéditos), mas que em poucas chances teve tal nível de profundidade. Porque profundidade não é apenas inserir citações e referências filosóficas, mas assim até onde os criadores botaram inteligência e criatividade em seus trabalhos.

Sakamichi, como já dito anteriormente, possui uma ambientação interessante, uma cidade pequena nos anos 60, mas não é usada com toda a força que seria capaz. O melhor momento é quando a banda se reúne para tocar em um bar usado por soldados americanos e acaba discutindo com um deles, onde uma característica marcante de Kyushu, a alta presença estrangeira, é mostrada, mas é só. E a dificuldade de utilizar a ambientação passa por outro problema: como os personagens são apresentados.

Kaoru é obviamente o protagonista da estória, mesmo o anime focando no “triângulo” amoroso entre ele, Ritsuko e Sentaro. Ele veio transferido de uma grande metrópole para uma cidade do interior. Então, o sotaque de Kyushu, presente na fala dos personagens, é que faz realmente cair a ficha para Kaoru de que ele é um estranho numa terra estranha, um forasteiro. A ambientação(mais precisamente a localização) foi mais utilizada para fazer com que o protagonista sentisse essa sensação de “estrangeirismo”. Kyushu por si só não tem influência na estória que segue. As características marcantes da ilha são a já citada influência maior de estrangeiros do que no resto do país, e também o cristianismo. Os estrangeiros em si também são pouco explorados. Fora o supracitado evento da briga no bar, os personagens não se relacionam com os estrangeiros. O bar mesmo mostra que isso é mal explorado: os estrangeiros habitam “um outro mundo” e apenas pela vontade dos protagonistas eles serão acionados.

O cristianismo também é mal explorado. Nós vemos Ritsuko e Sentaro na igreja, mas e aí? O que mais? Apenas mais um maneira de mostrar como ele é “diferente”. Não tem nada de cristão nele. Visões sobre o mundo, citações da Bíblia, ele não reza fora da igreja, nem “meu deus” ou “ave maria” ele fala(não que isso seja um sinal de religiosidade). A religiosidade não influencia em praticamente nada na vida dele, então porque mostrar isso em primeiro lugar? É tudo muito superficial. Sentaro, aliás, é a síntese dessas duas reclamações. Além de cristão, ele é mestiço. Mas isso também não tem uma influência maior nos acontecimentos. Não se vê, por exemplo, ninguém sussurrando a medida que os três caminham juntos, gerando aquele mal estar conveniente, porque eles sabem que estão falando do menino cuja mãe ousou ter um filho com um estrangeiro imundo.

Os anos 60 também tem pouca relevância nos acontecimentos, fora aquela citação interessante de que John Coltrane tinha morrido(o que nos coloca em 1967). Eu poderia contextualizar isso aqui, mas é impossível não saber como foi, política e socialmente, a década de 60. Ashita no Joe é o anime que provavelmente melhor trata sobre esse assunto. Em Sakamichi no Apollon, porém, o tempo é apenas uma ferramenta para preencher a lacuna da caracterização de Junichi. Colocando-o como um agitador estudantil, os criadores conseguem iseri-lo no contexto histórico de sua época. Certo. Mas não é a agitação política que fará com que ele vire um rejeitado social. A mudança de personalidade dele foi ocasionada pela rejeição dos pais, não pela convicção política dele. O que significa? Que qualquer coisa que fizesse os pais dele se decepcionarem com ele(drogas, má desempenho escolar, até mesmo pura preguiça) levaria ao mesmo resultado. Os anos 60 não influenciam em nada aqui.

Para finalizar, a ambientação de Sakamichi no Apollon, embora única, é rasa e mal explorada. Não oferece nenhum tipo de diversificação do anime escolar qualquer(exceto talvez pela presença do sotaque de Kyushu em vez do de Osaka). É uma reprodução muito simples de algo tão promissor, principalmente se expandirmos a ambientação e estudar as ações dos personagens no contexto em que estão localizados. Diz a psicologia que o ambiente tem impacto determinante na personalidade do homem. Os personagens, no entanto, são incrivelmente modernos, fora pelos seus desejos, esses sim limitados pela ambientação. O que torna a coisa ainda mais triste é quando lembramos que as obras que tornaram famoso o diretor de Sakamichi, Shinichiro Watanabe, Cowboy Bebop e Samurai Champloo, são justamente dois dos animes que mais souberam como explorar bem sua ambientação.

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