From Up On Poppy Hill não é o que dizia ser

The boy who leapt through air.

Dizem que Tales from Earthsea, a estréia de Goro Miyazaki como diretor, foi tão mal recebido que o pai dele, o famoso Haiyao Miyazaki, se recusava a falar com ele. Aparentemente eles conseguiram se entender, já que o filho retorna como diretor em um projeto com storyboard e produção assinados pelo pai. From Up on Poppy Hill(no original, Kokuriko-saka Kara) foi anunciado como a estória de amadurecimento de uma menina no Japão pós-2ª Guerra se preparando para receber as Olimpíadas. Embora o filme não tenha sido de todo ruim, não foi bem isso que aconteceu.

O gênero coming of age, no qual Poppy Hill declara se encaixar, lida geralmente com crianças entrando na adolescência, passando a descobrir e experimentar as dificuldades de começar a viver um mundo mais maduro, mas adulto. Até então, elas viviam em uma zona de conforto, sem maiores preocupações, e a transição da infância para a adolescente, todos sabem, é a mais fase difícil da vida. Elas começam a descobrir como é o “mundo de verdade” e, como ainda são imaturas, ficam sem saber como reagir. Esofrem, e é esse sofrimento que vai construir o caráter delas e prepará-las para a vida daí em diante. Coming of age é o gênero onde o desenvolvimento e o relacionamento entre os personagens e a exploração psicológica deles é o fator mais importante. Exemplos clássicos são Evangelion e Infinite Ryvius.

Embora Poppy Hill tenha um drama relativamente bem feito, não pode ser realmente considerado um coming of age. Os personagens permanecem todos lineares durante trama inteira. A receita para um bom CoA é primeiro estabelecer a caracterização dos personagens e depois despejar tudo no desenvolvimento. Não é uma coisa fácil: uma boa caracterização leva tempo, e o desenvolvimento leva mais tempo ainda. Por motivos óbvios, num filme, o tempo limitado leva os produtores a fazerem certos cortes que podem prejudicar a produção. Aqui, infelizmente, a parte cortada foi a mais essencial: o relacionamento entre os personagens, rápido e superficial. Foi uma surpresa e tanto quando Umi e Shun falaram em “nosso relacionamento”. O quê, eles conversam e se olham uma ou outra vez e já estão discutindo a relação?

O relacionamento apressado também prejudica o drama, que é bem feito, mas melhor no geral do que nas partes. Eu quero dizer que cada sub-drama(o mistério do pai do Shun, a expectativa da manutenção do Latin Quarter, etc.) é meio infantil e previsível, mas a soma deles é que torna o drama do filme interessante. O drama, tal qual o desenvolvimento, também é apressado, mas feito de maneira inteligente o bastante pra não passar a impressão de ser forçado.

Esse prédio na verdade é o “personagem” mais carismático e o que mais se desenvolve ao longo do filme.

Como em vários outros filmes do Ghibli, o que mais me encanta é como eles são capazes de pegar uma lugar normal e transformar em um ambiente fantástico(como a floresta de Tottoro ou as fontes termais em A Viagem de Chihiro). São lugares do cotidiano, o sujeito comum poderia passar por esse tipo de lugar na vida real e, claro, não aconteceria nada. Mas o que o estúdio Ghibli se especializou em fazer é justamente isso: pegar lugares e situações do dia a dia e mostrar o quão mágico eles podem ser. Aqui nós temos esse anexo da escola, onde se localizam os clubes. Uma completa tragédia por fora, mas por dentro é como se fosse um ecossistema de outro mundo. Como eles se comunicam usando aquelas caixas, salas apinhadas de deus sabe o quê, se eles tivessem um mapa pra indicar onde fica cada clube seria genial, mas infelizmente é só um porteiro.

O sub-enredo do Latin Quarter(o supracitado edifício) é o que movimenta a estória, onde os personagens principais irão conviver um com o outro. A parte mais interessante do filme é ver como os estudantes se juntam para salvar o prédio, que corre risco de ser demolido por ser velho demais. Isso vai reunir os protagonistas. Infelizmente, o líder dos “rebeldes” Mizunuma, o personagem mais interessante, é também o menos explorado e pode passar a impressão de ser inútil. Diretamente no filme, o máximo que ele faz é passar uma “previsão” do que seriam as respotas da prova de física. O resultado da prova tem relevância nula nos acontecimentos posteriores do filme. Sim, ele comanda os revoltosos, mas eles poderiam também ser liderados por uma assembléia geral, ou pelo próprio Shun. Não existe nada que o torne único. Pode-se dizer que ele só está lá para fazer um par romântico de fundo de tela com a irmã da Umi.

O que eu mais gostei mesmo no filme foi como os anos 60 foram utilizados. Minha maior queixa com Sakamichi no Apollon, outro anime ambientado na década de 60, é que a época tem pouca relevância em geral. Aqui, a ambientação também não teve uma grande apresentação, mas foi melhor executada do que na série de TV. Principalmente quando Umi vai fazer o jantar, e a colega de moradia dela abre um alçapão no piso para pegar os vegetais. Afinal, qualquer coisa que não seja o básico do básico(como o arroz) é um tesouro no pós-guerra. A trilha sonora também colabora. Tal qual em Dororon Enma-kun, outro anime recente ambientado nos anos 60, as músicas de fundo são lentas e focadas mais na voz do que nos instrumentos. A ambientação aqui foi mais satisfatória principalmente porque Sakamichi tentou demais ser o que não é, exagerou em elementos para passar uma sensação de uniquismo e não soube explorá-los direito. Poppy Hill foi despretencioso, marcou mais pontos.

Poppy Hill realmente não foi um coming of age. Os personagens não lidam com nenhum conflito super dramático nem amadurecem ou se desenvolvem de maneira radical. Não que isso seja uma coisa ruim. Deve ser visto mais como um leve drama histórico do que um coming of age. Um filme sólido e com bons elementos, mas que pecou em várious outros, como nos personagens e na previsibilidade dos conflitos. Até onde isso é culpa da fonte original eu não sei, mas é visível que Goro Miyazaki aprendeu com os erros de Tales from Earthsea.

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