Sisshou Nikki: a vida como ela é

Alguém conhece Hideo Azuma? Eu também não conhecia, mas aparentemente ele trabalha como mangaká desde os primórdios, lá nos anos 60, ganhou incusive alguns prêmios. Mesmo assim, ele não é muito famoso no mainstream. Mas esse mangá, Sisshou Nikki, deveria ser leitura obrigatória.


Sisshou Nikki, ou Diário do Desaparecimento, é isso aí mesmo: cansado da rotina de trabalho estressante, chegando ao ponto de criar, manualmente e apenas teno a esposa como assistente, uma série semanal, uma quinzenal, 4 mensais e alguns one-shots aqui e ali, oisa que eu duvido que um autor moderno faria. Azuma simplismente joga tudo por alto, sai de casa sem avisar nada à mulher e começa a viver como sem-teto. O mangá é o relato dessa época, ou épocas: dividido em três capítulos, cada capítulo divido em estórias menores; e cada capítulo narra um sumiço diferente.

O primeiro, no qual Azuma diz pra mulher que vai comprar cigarro e não volta mais, é interessante pro apresentar uma visão meio romantizada da vida na rua. No começo, o autor afirma que criou a estória da maneira mais positiva e menos realista possível, e o que se entende é que, se houve algum tipo de acontecimento macabro, o mangaká não faz questão de nos contar. Tirando o pessoal que exige que dramas apresentem a maior quantidade de sofrimento possível, ninguém vai sentir muita falta.

De qualquer modo, o autor quis fazer um relato não necessariamente realista do período em que ele ficou nas ruas, e consegue. Se aconteceu mesmo ou não algum incidnte, pouco importa. Eu até diria que não aconteceu, porque aí ele voltaria pra casa, não é? Esse primeiro capítulo é legal por mostrar que o autor até se diverte com seu novo cotidiano, de procurar algo comestível para jantar até a alegria de encontrar uma caixa quase cheia de cigarros depois de sabe-se lá quantos dias fumando só bitucas. Ele inclusive admite que agora possui um estilo de vida mais saudável, acorda cedo, dorme cedo. Ele até fica mais gordo.

E tem gente que diz que Moyashimon é bom por ser educativo, não é? Pois esse pessoal vai adorar Sisshou Nikki, pois o mangá é um verdadeiro guia de sobrevivência quase perfeito de como ser um sem-teto. Afinal, o que é mais provável: que um dia você tenha que fazer miso e etc., ou que você vire um desabrigado? Então.

O principal problema do primeiro desaparecimento, Azuma diz, é que era justamente a primeira vez que ele fazia isso, ou seja, ele era inexperiente. Por isso, ele diz que o segundo sumiço é mehor, por já ter certo costume. E ele tem razão, visto que ele consegue inclusive arranjar um emprego, na compahia de gás de Tóquio, mexendo com encanamentos e etc. Aí, em vez de falar sobre como procurar ou preparar comida na rua, ele começa a falar de situações do trabalho, do colegas e tudo mais, e ele mesmo se diverte por, mesmo sendo um “fugitivo”, estar vivendo uma vida praticamente normal.

O terceiro capítulo não trata de um sumiço em si mas, tal qual nos outros desaparecimentos, de um período de reclusão pessoal. Azuma teve que ser internado na ala psiológica de um hospital, porque seus problemas com álcool tinham passado dos limites. Mesmo no estilo leve da narrativa, os relatos do autor, de não conseguir dormir sem beber ou ter halucinações no meio da rua, tem impacto emocional forte. Antes disso, ele ainda conta a história da sua carreira, para quem se interessa em saber sobre a história dos mangás.


Azuma chegou à beira da morte por cirrose, e consegue dar a volta por cima, Se ele teve alguma recaída, ele não conta. Como já deu pra perceber, a grande graça do mangá é ver como o protagonista age nas situações em que ele se encontra. A exploração do ambiente, em todos os três capítulos, é muito interessante., indo de como preparar comida usando um latão de lixo até o cotidiano no hospital, passando por uma reunião dos Alcoólicos Anônimos. pode-se dizer qu eisso é tudo que o mangá tem a mostrar, mas é feito de forma cativante o bastante para tornar Sisshou Nikki uma leitura fantástica.

Se eu tivesse que escolher um defeito em Sisshou Nikki, é que não foca muito, ou nada, nas consequências dos sumiços. Ele foge de casa, passa mais de um ano sumido(em cada um dos dois primeiros capítulos), volta, e aí? Como a família dele reage? Isso não é mostrado. Eu entendo que o destaque seja no autor e no tempo que ele passou fora de casa, e que ele criou o mangá da forma mais suave possível(em um trecho ele admite recusar mostrar detalhes por não serem uma parte feliz), mas é certo ignorar uma parte que poderia gerar um bom drama?

Eu não sei, e isso é mais uma reclamação pessoal do que uma análise subjetiva já que, considerando os objetivos que o autor diz almejar, de fazer um SoL suave sobre assuntos geralmente tratados de forma pesada e sombria. Tem gente que pode achar tudo muito água com açúcar, que o mangá trata seus temas de forma boba e infantil. Mas é inegável que Sisshou Nikki é uma obra prima de seu gênero, e dos mangás em geral. Altamente recomendado.

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