O exagero é a marca de Kokumin Quiz

Sabe aquele programa da Band, “Quem fica em pé?”? Legalzinho, né? Se você acertar todas as perguntas ganha um prêmio, e se perder é punido. É exatamente esse o conceito de Kokumin Quiz, ou National Quiz. Só que levado ao extremo.


E essa é a principal característica de Kokumin Quiz: o exagero, os extremos os quais as coisas são levadas. As perguntas no quiz envolvem coisas do tipo “Quantas toneladas de arroz foram produzidas ano passado” até “o que pessoa X comeu de café da manhã no dia 15 de julho do ano passado”. As punições também são destaque aqui: quem perde no show vira um criminoso do mais alto nível, e pode ser condenado a décadas de trabalhos forçados, como escavar por petróleo na Sibéria usando apenas uma colher.

E como esse programa tem autorização pra isso, você pergunta? O Kokumin Quiz não é um show qualquer. Em um presente alternativo onde o Japão é uma ditadura e a única megapotência do mundo, o programa é produzido pelo próprio governo, contando inclusive com ministério próprio, o mais importante de todos, já que o programa é líder de audiência. Obviamente, aqui entra a velha questão do pão e circo, ou no caso só circo: o povo vai aceitar qualquer tipo de opressão, contanto que a novela de noite e o futebol no domingo continuem. Mas não é só isso.


O Japão é uma ditadura, ou seja, o povo não decide nada. E o programa realiza qualquer(qualquer) desejo que o participante tiver, de poder matar a sua vizinha sem sofrer punição, até comprar a Torre Eiffell da França e usar como decoração no seu onsen. Participar do programa, e ter seu desejo atendido, é considerada a forma suprema de democracia. Até que faz sentido, afinal a essência da democracia é mudar alguma coisa(o prefeito, o mundo, ou apenas o rumo das nossas vidas) através das escolhas que fazemos.

Obviamente isso não é uma democracia perfeita, o sistema do quiz mais realiza desejos do que provoca mudanças, e é exatamente isso que o governo quer. E é por isso que tem gente querendo acabar com o programa.

O prédio da ONU.

Kokumin Quiz, o mangá, não é só sobre Kokumin Quiz, o programa. O show é sim a parte essencial da estória, mas não é tudo. Como se pode imaginar, existem várias referências e sátiras políticas, e, mais importante, um enrendo(e vários sub-enredos) em andamento. A estória principal trata justamente da tentativa dos rebeldes de querer acabar com o quiz, pois na visão deles o governo não resistiria se sua “obra” mais popular fosse destruída. Mas não são só os rebeldes que querem o fim do programa.

Os países do G-8 também querem acabar com o programa, o que adiciona várias reviravoltas ao enredo. Afinal, o mundo virou o quintal do Japão, e vários países devem muito(tipo, trilhões) ao Japão, e por isso ele faz o que quer(e os participantes do Quiz pedem) com as outras nações. A ONU também é controlada pelos nipônicos. Só resta aos outros países lutar. Mas a luta não é cara a cara, óbvio, mas mais baseada em estratégias e intrigas políticas.


Como se não bastasse isso, também existe o sub-enredo da briga de poder dentro do ministério do Kokumin Quiz. Por ser o ministério mais importante, um cargo importante lá garante uma alta posição no governo, e junto com isso dinheiro e influência.

Mas que tipo de personagem habita esse mundo? Todo tipo. Os participantes do quiz parecem ter fugido de um zoológico, são um verdadeiro festival de aberrações. Não por causa da aparência bizarra, a esquisitice deles é mais expressa através dos pedidos que eles fazem no show. Os líderes dos países do G-8 também são bem apresentados, fugindo do caminho fácil de apresentar estereótipos nacionais(o americano bombado, o francês afeminado, por aí vai). No geral, os personagens são todos bem caracterizados, e aqui eu abro um espaço para falar dele, o maior astro do mundo: K-1 K-Ichi.


Falar de Kokumin Quiz é falar de K-1 K-Ichi. Apresentador do programa, ele possui 98% de aprovação do público. Ele é um artista no verdadeiro sentido da palavra. Como ele se veste, como ele se comporta: ele é a representação viva do exagero que eu mencionei no começo do post. Performático ao extremo, ele é a alma do show, e por isso mesmo ele é alvo de atentados dos rebeldes. Afinal, se destruir o Kokumin Quiz é destruir o governo, destruir K-1 K-Ichi é destruir o Kokumin Quiz, do qual ele inclusive já participou antes e perdeu.

Um ponto que merece destaque é a arte do mangá, cortesia de Shinkichi Katou. Como já deu pra perceber, ela não segue o padrão comum do mangá, sendo mais próximo do comic americano. Ele é meio minimalista, mas também complexo; por exemplo, não são usadas muitas sombras, e alguns painéis parecem ter sido desenhados apenas com uma caneta. Mesmo assim, tudo é bem detalhado, e os desenhos de obras grandes, como prédios, são muito bem feitos. A arte adiciona bastante à estória, e eu posso dizer sem medo que se Kokumin Quiz tivesse sido feito com uma arte diferente, não seria a mesma coisa.

Se eu tivesse que comparar, eu diria que Kokumin Quiz é mais ou menos parecido com Sayonara Zetsubou-sensei, mas destinado a uma audiência mais madura, e com um enredo e personagens mais bem criados. Kokumin Quiz mistura política, comédia e uma boa estória de um jeito criativo e bem feito. Quem gosta de uma boa estória e bom humor vai adorar.

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